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quarta-feira, 23 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Um currículo de autoconhecimento, re-educação interpessoal e cultivo espiritual
Por Claudio Naranjo
“A pergunta que mais freqüentemente nos fazemos é ”que?”: Que matérias devemos ensinar? Quando a conversação se faz mais profunda, passamos a nos perguntar pelo como: que métodos e técnicas são necessárias para ensinar bem? Ocasionalmente, quando se faz ainda mais profunda, chegamos a perguntar o por quê: Com que propósito e para que ensinamos? Porém raramente perguntamos pelo quem: Como pode a qualidade do meu ser determinar a maneira como me relaciono com meus estudantes, meu tema meus colegas,
meu mundo?”
G. Leonard, Op. Cit.
É
costume começar dizendo que temos muito prazer de estar entre os presentes e, apesar
de eu às vezes recorrer a fórmulas convencionais, a ocasião é tão especial para
mim que não posso deixar de mencioná-lo. Quando recebi o convite telefônico de
Hugo Diamante, disse-lhe que o tema da educação me acalora e, agora, ao
encontrar-me aqui, vejo que este é um dos congressos mais vivos dos que já
assisti, tanto pelo que está sendo dito como pela forma que se está recebendo o
que é dito. Além disso, creio que a estas alturas da vida tenho algo importante
para compartilhar com os educadores, pois me sinto como quem, sem saber, esteve
trabalhando durante muitos anos na elaboração de algo que, de pronto, aparece
como um invento socialmente útil de uma maneira diferente da que havia
imaginado. Explicando melhor: trabalhando na formação de terapeutas aperfeiçoei
um programa altamente potente de desenvolvimento humano que bem poderia
preencher o vazio que tão lamentavelmente sofre a formação de professores no
tocante ao autoconhecimento, relações humanas e vida contemplativa.
Vou
seguir o exemplo de alguns que falaram antes de mim, como o Dr. Janis Rozé e Fernando
Flores, e contextualizando as idéias que vou expressar, contarei a história do
trabalho que venho fazendo, que começou como um trabalho psicológico e
espiritual com buscadores, orientou-se posteriormente para a formação de
terapeutas, e suspeito que vá alcançar sua máxima utilidade como complemento na
atual formação de pedagogos.
Posso
começar esta história com a época em que me coube viajar para a Califórnia pela
primeira vez e conhecer o Instituto Esalen. Eu era um jovem psiquiatra que
trabalhava em um novo departamento da Escola de Medicina da Universidade do
Chile, o Centro de Estudos de
Antropologia
Médica, destinado a mitigar o conhecido processo de desumanização que a educação
médica tradicional produz nos estudantes. Porém, mais que nada, eu mesmo era o que
me caracterizou através da maior parte da minha vida: um buscador.
Hoje,
o Instituto Esalen é bastante conhecido por sua notável história – intimamente ligada
à de Fritz Perls – e por sua influência sobre um grande número de centros
terapêuticos em todo o mundo. Em seu começo, durante a época dos anos sessenta,
o Instituto pretendia implementar uma idéia que Aldous Huxley descreveu como de
ministrar as “humanidades verbais”. Isto requeria fazer acoplamentos de várias contribuições ao
desenvolvimento humano que naquele momento haviam surgido independentemente,
como as diversas disciplinas orientadas para a consciência do corpo, trabalhos
em grupo orientados para a consciência emocional, aplicações da arte ao
conhecimento de si, etc.
Através
de Esalen conheci pessoas que foram importantes em minha vida, como Perls e Simkin,
Alan Watts e Joseph Campbell, porém o estímulo deste centro inovador também foi
determinante para que concebesse criar uma escola que, diferente de Esalen,
lugar onde se recorria a atividades breves, oferecesse um currículo tal – um conjunto
de disciplinas complementares que os estudantes pudessem integrar em uma
síntese original.
Isto
começou com meu regresso ao Chile, depois de Esalen, e mesmo que a atividade que
desenvolvi não chegasse a ter um nome local, o catálogo de Esalen se referia a
ela com a expressão Esalen-en-Chile, e quando regressei posteriormente aos
Estados Unidos, este trabalho constituiu a forma germinal do que tive que
realizar mais tarde ali, assim como a base vivida do livro que naquele período
escrevi (A Única Busca) acerca de metodologia comparada e aspectos subjacentes
a muitos caminhos espirituais e terapêuticos.
Ao
regressar aos Estados Unidos, Esalen não só me convidou como gestaltista, mas
me deu a liberdade de prosseguir minhas iniciativas experimentais e, foi nesta
época, que mais vivamente senti que convergiam em meu trabalho as influências
recebidas como buscador com aquelas recebidas no campo profissional. Tomou
especial relevo em meu trabalho a combinação entre o terapêutico e a meditação
– o que naqueles tempos era novidade, e particularmente novo era o fato de que
não se tratava de uma simples justaposição de meditação e psicoterapia, mas de
um trabalho de integração entre ambos: exercícios interpessoais através dos
quais se pudesse levar a atitude meditativa a situações de comunicação verbal.
Porém
tudo isto foi interrompido por mais de um ano por uma experiência que posso descrever
como a principal peregrinação de minha vida – quando deixei minha casa, meu trabalho
e meus planos para reunir-me com um mestre espiritual então desconhecido, em
quem reconheci um vínculo com a misteriosa e remota tradição espiritual que
tanta influência teve sobre mim durante a adolescência através de Gurdjieff.
O que
começou como um projeto pessoal, transformou-se em uma nova escola – pois ao perguntar
a Oscar Ichazo (assim se chama o referido mestre) se poderia estender um
convite semelhante a alguns amigos (originalmente John Lilly, Ram Das, Stanley
Keleman e John Bleibtreu), o projeto despertou um insuspeitado interesse em
outros e terminei viajando ao oásis de Azapa (proximidades de Arica no extremo
norte de Chile) em companhia de mais de quarenta companheiros, muitos deles do
ambiente de Esalen.
Dizer
que a experiência foi para mim de profundo impacto espiritual seria pouco, pois
constituiu um verdadeiro nascimento para um nível de consciência previamente
desconhecido e o começo de um caminho de transformação profunda sem volta.
Naturalmente, isto veio a se refletir em meu trabalho posterior, para o qual
tudo até então me pareceu que havia sido uma simples preparação.
Durante
alguns anos este trabalho se concentrou em um grupo de umas sessenta pessoas
(em Berkeley) e tomou a forma de uma contínua improvisação mais que a implementação
de um programa premeditado. Com o tempo, entretanto, foi se cristalizando um programa
propriamente e, para sua realização, tive a sorte de contar com a colaboração
de mestres notáveis como do Rabino Zalman Schachter, Dhiravamsa, o tântrico
Harish Johari e Ch’u Fang Chu – discípulo do último patriarca taoísta, que
naquele tempo chegou na Califórnia, vindo de Taiwan.
Surgiu
assim, outra nova escola, e quando foi necessário dar-lhe um nome (em motivo da
constituição de uma corporação educativa sem fins lucrativos) chamei-a SAT em
tripla alusão à palavra sânscrita para SER e Verdade, às iniciais de Seekers
After Truth (Buscadores da
verdade)
e (através do simbolismo fonético) a uma visão tripartida da mente e das coisas
que transcorrem através do cristianismo esotérico transmitido por Gurdijeff e
Ichazo e caracteriza minha própria compreensão da vida psíquica.
Assim
como meu trabalho no Chile teve como resultado a forma germinal do que vim a realizar
mais tarde nos Estados Unidos, meu trabalho nos tempos do programa SAT
norteamericano resultou na forma embrionária do que uns quinze anos atrás vim a
executar na Europa. Isto começou com o convite de realizar um curso de verão
orientado para a “formação pessoal e profissional” de psicoterapeutas, com o
formato de três sessões (uma por ano) com um mês de duração cada; porém com o
tempo o formato do curso reduziu-se paulatinamente e sua forma atual consta de
três módulos de dez dias.
A
forma como um módulo de três meses se transformou em outro muito mais compacto,
de modo algum poderia ter sido antecipado na forma teórica; somente a evolução
de uma prática no tempo permite a paulatina expressão da criatividade no curso
de um processo emergente. Assim, ao longo de mais ou menos quinze anos e,
graças à evolução destes cursos (mais práticos e vivenciais do que teóricos),
parece-me que acabou de tomar forma algo que espero que possa servir como um
fermento transformador no mundo da educação, depois de haver ajudado um grande
número de terapeutas em diversos países.
Quero
agora lhes apresentar brevemente o conteúdo do currículo, predominantemente vivencial
que, realizado com a ajuda de valiosos colaboradores e refinado progressivamente
através dos anos, está tendo resultados tão satisfatórios.
A
estrutura fundamental (que é algo como a bandeira sob a qual trabalhei desde sempre)
é a de unir a meditação com a terapia, o que não é tão novidade agora como
quando introduzi esta prática em Esalen, há mais de trinta anos. Apesar do que
digam muitas escolas espirituais, que consideram o terapêutico irrelevante, e
as escolas terapêuticas que consideram o espiritual como ilusão ou evasão da
realidade (“ópio do povo”), creio que o âmbito interpessoal da mente e o âmbito
transpessoal ou espiritual não são senão aspectos de um fenômeno único – e a
cura ou reeducação emocional (que não é outra coisa senão o restabelecimento de
nossa capacidade amorosa) não é nem inseparável da realização espiritual nem
dispensável na Grande Viagem da Alma.
A
combinação da meditação (o velho caminho contemplativo) com a psicoterapia (o “yoga
interpessoal” que constitui o principal aporte de nossa cultura para o caminho
de realização) tem uma potência muito particular. Quando digo meditação, não só
me refiro a uma dimensão muito grande, mas a uma realidade multifacetada, pois
a meditação reúne em si muitos elementos, alguns dos quais são exaltados
preferentemente em uma ou outra cultura.
Minha
maneira de ensiná-la, como se verá, é integrativa, ainda que coloque em relevo
a contribuição do budismo.
Falar
de meditação no sentido mais amplo da palavra, praticamente coincide com falar de
espiritualidade, já que as diferentes técnicas de meditação conhecidas
constituem os principais exercícios espirituais da humanidade. Porém quando se
fala de espírito e de espiritualidade às vezes se tem uma idéia muito vaga ou
fragmentária do que são, e um conhecimento amplo da meditação pode ser a melhor
forma de preencher esta lacuna em nossa educação, pois a dimensão espiritual da
vida, como a meditação, é multifacetada, e cada um dos aspectos desta última
constitui uma via de acesso a essa profundidade da mente à qual às vezes se
alude simplesmente como “consciência superior”.
Quando
no mundo ocidental se afirma que é importante a consciência espiritual, o que aproximadamente
se quer dizer é que é importante o sentimento do divino, ou uma orientação para
o divino. Como resultado de uma confusão entre a vivência do divino e a
ideologia ou mera crença, entretanto, assim como da crescente secularização das
crenças, pode-se dizer que o ideal espiritual assim concebido perdeu
atualidade, e que as formas tradicionais de oração são consideradas por muitos
como um resíduo supersticioso do passado. Por isto, parece-me importante
resgatar o aspecto vivencial do divino, que não depende de ideologia alguma nem
de uma visão teísta das coisas; sua essência é o sentido do sagrado, que se
cultiva através de um tipo de meditação em que se dirige a atenção para
conteúdos simbólicos que têm por objeto a evocação de um valor supremo. (Mesmo
que tal valor supremo não se embase propriamente no âmbito de objetos ou
qualidades, podemos dizer que pode ser projetado sobre imagens, sons, cores e
inclusive conceitos – tais como o eu, o nada, a consciência suprema ou o
divino).
Porém,
por intrínseca que seja a capacidade sacralizante para a maturidade espiritual
e desejável que seja o “reencantamento do mundo” através de seu cultivo, não
devemos confundir o sentimento do sagrado, e menos a intuição de uma divindade
transcendente, com o espiritual, pois estas constituem facetas ou manifestações
do Espírito. Igualmente relevante para a consciência superior é a aprendizagem
implicada por uma forma de meditação onde a pessoa, aparentemente, faz o
contrário da evocação da sacralidade, pois não dá atenção a conteúdos simbólicos,
mas ao sensorial, e em vez de gerar uma experiência do misterioso valor supremo
que envolve o mundo das coisas sem lhe pertencer, dirige seu empenho para uma percepção
simples ou pura do “aqui e agora”, como é típico do budismo Thevarada.
Em
ambos os casos, a meditação guarda relação com a orientação da atenção. Ela
pode apontar para os “dados imediatos da consciência” de que falava Bergson (o
que toco, o que vejo, o que escuto, as emoções, as sensações corporais do momento)
cujo conjunto podemos considerar a superfície da consciência (e é sumamente
importante que possamos recuperar a capacidade de contato com o imediato que
tivemos quando crianças e que talvez perdemos ao estarmos demasiado imersos em
nosso mundo simbólico), ou até a profundidade da mente, que é assento das
vivências do ser, do eu e do divino. Já que esta profundidade da mente não é acessível
à consciência ordinária, todavia é evocada (ou invocada, às vezes) através do
tipo de meditação já referido, em que se apela para a concentração no material
simbólico, que serve para o desenvolvimento da imaginação criativa e a evocação
de significados – e cujo fruto característico é a experiência da sacralidade.
Estes
dois aspectos da meditação constituem aspectos complementares da vida em geral e
convém observar como se fazem particularmente presentes na psicoterapia, sem
que isto signifique que sejam mais relevantes no terapêutico que na educação.
Bem sabemos que um aspecto importante da terapia é precisamente o de recuperar
a capacidade de “presença” ou de estar no “aqui e agora”, como tão
freqüentemente se diz desde os tempos de Fritz Perls.
Hoje
em dia se recorda Perls como o criador de um sistema terapêutico, porém, não se
sabe que foi uma pessoa de estatura profética quanto ao impacto que exerceu
sobre a sociedade de seu tempo; pode-se dizer que foi o profeta do aqui e
agora, que através de seu impacto pessoal fez sentir àqueles que o acercavam
que havia algo como um caminho do estar presente, uma via de desenvolvimento
pessoal que passa pela capacidade de pôr-se na atitude de que o passado já não
existe e o futuro, todavia não existe (até agora não fomos tão fundo a ponto de
começar a duvidar também do presente). Se adotarmos a atitude de tomar o
presente como a única coisa que existe, isto leva a um aprofundamento da
experiência do momento, mais remota
e por
sua vez mais rica do que estamos acostumados a crer. Isto nos parecerá como se tivéssemos
perdido em boa medida tanto a capacidade de tomar contato com a experiência do momento
como de admiti-la ou confessá-la. Quantas vezes, no curso de uma conversação,
não nos sentimos aborrecidos, molestados, descontentes com o que se passa, sem
saber como sair de uma situação quando a saída estaria em poder simplesmente dizer:
“Neste momento, não gosto do que está se passando”; ou “Não sei o que está se
passando, mas não gosto”. Só esta liberdade de falar da experiência do momento,
apesar de vago, mudaria o rumo da conversação. Porém não sentimos que está
entre os cânones da vida social falar do que se passa no instante, ou, se
começamos a explorar o assunto, encontramos muitas dificuldades.
É
precisamente a tomada de contato com o presente, junto à comunicação da experiência
presente, o que mudou o espírito das terapias contemporâneas quando começou a fazer
parte delas. Antes, a psicanálise havia convidado muito à reflexão sobre o
passado, sobre o que se passou na infância da origem dos problemas
psicológicos. Já com Reich começou-se a observar mais o que acontece no presente,
e Perls foi quem pôs ainda mais ênfase nele, chegando a propor que basta o
indivíduo trabalhar com o presente para que recupere a capacidade e o direito
de sentir o que sente, de saber o que sente, de saber o que pensa, de saber o
que está fazendo e de dar-se conta do óbvio. Porém assim como é importante essa
recuperação da capacidade de experiência, podemos dizer que a patologia
descansa nesta perda da capacidade de saber o que sentimos, e o que chamamos
inconsciente descansa neste não ter direito de saber o que se passa em nós, que
por sua vez vem ao lado de nos tornarmos cúmplices de uma mentira social.
Porém,
assim como o que medita nem sempre dirige sua atenção para a experiência do momento,
também no mundo do terapêutico, que se move na linguagem, não só é importante a
recuperação do simples presente. Também é importante a recuperação da dimensão
mágica da vida e, quando se fala do transpessoal em psicoterapia, em grande
medida tem a ver com a recuperação disso que nos trazem as concepções religiosas
do mundo, desdenhadas pelo cientificismo de uma psicologia nascente: os
ensinamentos espirituais, os mitos e os contos de fadas, que sendo como dedos
que apontam para a lua, não devem ser confundidos com a própria lua. Neles se
recorre ao simbólico para ir além do simbólico – ao centro da mente em si – para
evocar algo que transcende os conteúdos específicos da mente e que podemos
conceber como a própria consciência, a essência divina da mente e a fonte da
sacralidade.
Afirmei
que o desenvolvimento espiritual é multifacetado e que tão relevante para este
é o cultivo do sentimento religioso, como o cultivo da atenção para a realidade
imediata, que tão pouco espiritual parece a partir de uma perspectiva cristã
tradicional. Outra via de acesso para a maturidade espiritual (que introduzimos
no segundo módulo do programa depois de
haver começado pelo vipassana), é o que se vê representado por formas de
meditação em que se procura deter a mente para transcendê-la. Isto se consegue,
por sua vez, através da
concentração.
Os
ensinamentos tradicionais de diferentes culturas nos dizem que só quando a
mente se aquieta pode refletir algo que está além dela mesma. Necessitamos
inibir nossa mente passional e as vozes interiores que vêm do egóico, inibir
nossas necessidades neuróticas e aprender assim a deixar o pensamento em um
pacífico silêncio.
Ainda
mais, se a meditação é saber parar quieto, também é certo que é o contrário; ou
melhor, o complementar: deixar a mente fluir.
Existem
várias complementaridades na mente, e a meditação só pode ser explicada de forma
paradoxal. É como ter um pé em cada aspecto do paradoxo para colocar a cabeça
em outra dimensão. Assim como constituem uma polaridade as práticas em que se
dirige a atenção para a superfície da mente ou, alternativamente, para sua
misteriosa profundidade (através de representações simbólicas), assim ocorre
com o cultivo da quietude e aquele aspecto da meditação que consiste em uma
educação da espontaneidade interior: o deixar que a mente vá aonde quiser, afrouxando
seu controle voluntário limitante. Claro que o paradoxo é tal, que quando
alguém afrouxa o controle de seus próprios processos mentais, é provável que
estes se aquietem; e também o contrário: se alguém sabe realmente ficar quieto
ocorre algo análogo como deixar-se ir em um barco e deixar de remar: a água o
leva. E se alguém se deixa levar, as correntes mais sutis e profundas do
próprio ser começam a se fazer sentir. E assim como quando se calam os alunos
na sala de aulas pode-se escutar o que diz o professor, também dentro de si se
as vozes pequenas se calam, pode-se ouvir uma voz que está em outro nível. E
vice-versa: quando se manifesta nossa mente profunda, é mais fácil calar-se.
Isto pode levar inclusive a um momento solene em nosso desenvolvimento: quando
se expressa um novo nível de vida em nós
e começa a morrer dentro de nós o que então nos parece como banal ou trivial.
Estes
dois aspectos da meditação – a quietude e a espontaneidade – têm a ver com a ação
e suas respectivas consignas, podem se comparar às luzes vermelha e verde do
semáforo, com seu significado de deter-se ou avançar. Assim, tanto a quietude
como a espontaneidade são aspectos da vida que merecem ser apreciadas e
cultivadas, e são, também, componentes da psicoterapia.
Pode-se
dizer que muitas das teorias da psicoterapia formuladas pelos originadores das escolas
tradicionais giram em torno de algumas idéias mais ou menos certas, porém não
chegam a proporcionar uma explicação universal. Se buscarmos uma teoria
abrangente transistêmica da psicoterapia,
certamente um dos princípios gerais que encontramos é precisamente o cultivo da
espontaneidade profunda, o deixar-se levar. Ainda que se trate do psicodrama de
Moreno, que falava explicitamente do cultivo da espontaneidade, da associação
livre da psicanálise ou de grupos de encontro, obviamente é isso o que entra em
jogo: desestruturar para que, ao romper as formas mais superficiais do
pensamento e da comunicação se manifestem estruturas mais profundas, e possam
assim aflorar as verdades menos óbvias. Isto é especialmente aparente no caso
da Gestalt, que é uma importante manifestação do espírito dionisíaco do mundo contemporâneo
– desse espírito que implica na fé no espontâneo e natural, e que Nietzsche proclamou
como a única salvação possível de nossa cultura ocidental (tão desvitalizada e desumanizada
por efeito de um milenar autoritarismo religioso e sua “moral de escravos”).
Além de ter um apreciável componente gestáltico, o programa SAT inclui dois
elementos que se prestam especialmente para a educação da espontaneidade: um
conjunto de exercícios psicológicos baseados na associação livre de idéias (que
descrevi em meu livro Entre Meditação e Psicoterapia), e uma disciplina nova
surgida da dança: o “movimento autêntico”, ensinado originalmente por Mary
Whitehouse.
Assim
como contrapus o “pare” e o “siga” da meditação, e descrevi uma polaridade
entre os gestos interiores de verter a atenção para a profundidade sagrada da
mente ou até os conteúdos concretos desta, podemos compreender a dimensão
afetiva da mente (não menos relevante para a meditação) em termos de uma
complementaridade. Muitas formas de meditação têm como assunto de base o
desapego: um dar um passo atrás, desidentificando-se do que está se passando,
sentindo ou desejando. Estamos nos tomando demasiado a sério, pode-se dizer, estamos
demasiado imersos em nossa dor ou em nossas preferências, em nossas opiniões e especialmente
em nossas cicatrizes – quer dizer nos melindres do que nos aconteceu alguma vez
e que, todavia, recai sobre nós como uma sombra ou como um fantasma,
separando-nos do presente. O que os orientais chamaram Karma não é outra coisa
senão o peso do passado sobre o presente (que não precisa necessariamente ser
de outras vidas). Em vista do apego que caracteriza nosso estado habitual (e
muito mais as perturbações emocionais) necessitamos dar um passo, às vezes em
forma de humor, às vezes simplesmente de forma serena. Naturalmente tal
“atitude filosófica”, característica da sabedoria, pode ser alcançada com o tempo
através da experiência da vida, porém é parte intrínseca de certas práticas de
meditação cujo fruto é o que propus chamar uma “indiferença cósmica”.
Por
mais que seja um ideal da vida chegar a uma atitude amorosa, não são incompatíveis
o amor e o desapego; e não só não são opostos, como também constituem uma misteriosa
complementaridade: é mais fácil a chegada ao amoroso se somos capazes do desprendimento,
pois não se pode dar quando se está demasiado apegado ao que se é ou ao que se
tem. E é também difícil conseguir o desapego sem uma atitude generosa, sem entusiasmo,
amor à vida, amor ao outro, amor a algo. Esta complementaridade é similar à da vida
e da morte, que tão entrelaçadas aparecem em certas obras literárias.
Se a
terapia tem que ver mais com o pólo do amor, a meditação aponta mais ao desapego,
porém também é certo que, tanto na teoria da terapia como na teoria da
meditação, necessitamos considerar ambos os assuntos e compreender sua
complementaridade.
Porém,
quão distante está de nossa prática educativa a idéia de que o silêncio mental
ou a desidentificação das paixões (desapego) possam constituir capacidades
fundamentais do ser humano e seu cultivo uma importante via para a consciência
espiritual. E quanto mais distantes estamos de levarmos a sério essa capacidade
de entrega, de sintonia com a profundidade da vida, de acordo com o todo! Hoje
em dia apenas se propõe combinar a instrução com uma “educação dos valores”,
porém na prática só se traduz, no melhor dos casos, em uma valoração de tais
valores. As capacidades que aqui proponho como facetas essenciais da vida
espiritual requerem, pelo contrário, muito mais que entusiasmo e retórica:
cultivam-se através de uma prática transformadora e requerem a presença de
guias que, através da disciplina correspondente, tenham chegado a encarná-las.
Outro
tanto se pode dizer do aspecto da meditação que se orienta para o desenvolvimento
da capacidade sacralizante, que parece haver se tornado irrelevante em nosso desencantado
mundo pós-moderno. Acaso então os gênios religiosos da humanidade foram meros
sonhadores ao nos recomendar o amor a Deus como o mais importante dos
preceitos? Suspeito que a deterioração coletiva da consciência seja resultado
de nosso espírito excessivamente mercantil, ao que não convém que se invoquem
valores que possam competir com as ganâncias.
Porém
deixo aqui o tema da meditação e passo para a consideração do elemento terapêutico
neste currículo de desenvolvimento humano que estou propondo como complemento para
a atual formação de educadores. Ao anunciá-lo como um currículo (suplementar)
de
“autoconhecimento,
reeducação interpessoal e cultivo espiritual” já aludi implicitamente ao terapêutico
através de dois fatores intimamente conexos: o do conhecimento de si ou
insight, e o de promover uma mudança voluntária nas relações humanas. E assim
disse que no programa SAT se combinam meditação e psicoterapia, no entanto, é
mais preciso dizer que nele se combinam a meditação, o autoconhecimento e a
reparação interpessoal.
Começo
por explicar o referente ao autoconhecimento, que constitui o objetivo das
assim chamadas psicoterapias de insight ou “psicoterapia profunda”.
O
autoconhecimento foi reconhecido desde sempre como uma via de transformação. A ele
professamos certa veneração coletiva ao “Conhece-te a ti mesmo” que tanto
associamos com a figura e missão de Sócrates e com o Oráculo de Delfos; porém
nisto somos coletivamente hipócritas, pois caso contrário o autoconhecimento
teria lugar fundamental em nossa prática educativa.
Os que
sofrem psicologicamente, quer dizer, os que não podem desconhecer seu mal emocional,
descobriram que necessitam do autoconhecimento para corrigir seu estado disfuncional
e a necessidade de cura coletiva alimentou o desenvolvimento do novo caminho de
transformação que é a psicoterapia moderna.
Enquanto
que as escolas espirituais tradicionais abordaram a superação do ego através da
prática da conduta virtuosa e da contemplação espiritual, a psicoterapia espera
em primeiro lugar que a transcendência dos condicionamentos infantis sobrevenha
através da compreensão de si mesmo. E ainda que se possa argüir que a
psicoterapia não trouxe tanta luz ao mundo como as grandes religiões com seus
santos e profetas, não se pode desconhecer sua contribuição, formidável e talvez
indispensável para o nosso tempo.
O
empreendimento de encaminhar-se para a compreensão de si mesmo compreende diversas
facetas:
1. – A
tomada de contato com a própria experiência no aqui e agora, que implica não só
na capacidade de aceitação e reconhecimento da própria experiência que se
cultiva na prática da meditação (e especificamente com a técnica do vipassana),
mas numa educação da capacidade de ser testemunha de si mesmo, quer dizer, de
viver o mais conscientemente possível em lugar de andar pela vida “no piloto
automático”.
2. – A
retrospecção, quer dizer, a tomada de contato, através da recordação, com a
experiência passada. Tal clarificação retrospectiva é estimulada e facilitada,
por sua vez, pela expressão, seja através da escrita ou da comunicação oral. Em
nosso programa, põe-se a escrita a serviço da compreensão da própria vida, por
um lado, e, por outro, a comunicação oral sistemática, através da associação
livre em um contexto meditativo, serve para o esclarecimento e análise das experiências
cotidianas.
3. –
Outra faceta do autoconhecimento é a compreensão da experiência do momento no contexto
da experiência total. A compreensão de si mesmo vai além de saber o que se
sente e o que se pensa em um momento determinado: o que na psicoterapia se
chama insight, implica na organização de nossas observações de nós mesmos em
uma configuração coerente, o que implica entender, por exemplo, os padrões
repetitivos em nossa vida relacional, assim como a relação de nossas
experiências presentes com as do passado. Implica, também, entender nossa personalidade
e como ela influi em nossa vida. O maior estímulo para a compreensão de nós mesmos
nos é proporcionado pelo diálogo com quem, em virtude de seu próprio autoconhecimento,
é capaz de entender o que nos sucede. No programa SAT este diálogo tem lugar no
contexto de diversos exercícios psicológicos interpessoais e em laboratórios
terapêuticos com gestaltistas e outros profissionais.
4. – A
tudo o que disse deve agregar-se um componente adicional do processo de autoconhecimento,
como é a clarificação da compreensão através de formulações teóricas ou mapas
de referência. Cada escola psicológica interpreta as experiências do indivíduo
a partir de uma teoria algo diferente, e aquela na qual nos apoiamos não são nenhuma
das conhecidas no mundo acadêmico, mas uma versão da psique desenvolvida a
partir de uma inspiração esotérica da Ásia central.
O mapa
psicológico mais satisfatório e esclarecedor que conheci até agora não é nenhum
dos propostos até hoje no campo da psicologia acadêmica, mas um que nos chegou
de uma tradição esotérica asiática, que desenvolvi no que chamo “Psicologia dos
Eneatipos”. Refiro-me à aplicação do Eneagrama ao estudo da personalidade –
algo que até agora encontrei pouca ressonância no mundo profissional, talvez
porque a abundante literatura produzida pelos divulgadores deixa tanto a
desejar que o entusiasmo popular pelo tema é interpretado pelos acadêmicos como
sinal de mediocridade.
Foi
Gurdjieff quem introduziu o Eneagrama no Ocidente, e quem quiser saber mais
sobre seu pensamento a respeito, pode encontrar algo em um livro muito
interessante de um jornalista russo da época – Ouspensky – intitulado Em Busca
do Milagroso.
Gurdjieff
constituiu uma das influências principais em minha vida, mas as aplicações psicológicas
do Eneagrama foram algo que aprendi com um boliviano a quem mencionei a propósito do meu ano de
peregrinação em Arica: Oscar Ichazo, que sob o nome de protoanálise apresentou
ante o colégio de psicólogos do Chile, em 1969, um conjunto de noções nas quais
se
pode
reconhecer a continuidade com uma tradição cristã muito antiga, da qual a
doutrina dos pecados capitais é um eco; há muitos séculos o que constituiu uma
psicologia prática no tempo dos Pais do deserto e hoje em dia sobrevive como
dogma da Igreja, perdeu-se como
conhecimento
vivo no Ocidente.
Em
nossos dias podemos reformular a doutrina dos pecados capitais dizendo que, por
termos todos sofrido durante a infância em maior ou menor medida uma frustração
amorosa, desenvolvemos uma maneira específica de tentar conseguir o que nos
faltou; e assim, por exemplo, desenvolvemos uma paixão pelo aplauso, pelo conhecimento, pela intensidade, pelo que
quiserem, etc. Enfim: aprendemos muitas manobras para conseguir amor, e não
conheci melhor mapa para entender a variedade destas manobras do que o
Eneagrama, coerente com aquele de que se utilizava Dante ao classificar os
pecadores no inferno ou no purgatório. Em alguns a dinâmica fundamental é o
orgulho, em outros a inveja, etc., e existem psicólogos que se interessaram
principalmente por uma ou outra destas emoções básicas (como Melanie Klein com a
inveja; Karen Horney, que fez do orgulho o centro de toda a compreensão do
psíquico; ou Freud com a angústia e o medo). Porém o Eneagrama permite ter uma
visão global dos tipos humanos e se começa a perceber que não existe uma
psicologia, mas nove; cada uma com sua loucura implícita, com suas idéias
disfuncionais e com suas necessidades particulares exageradas.
Passo
agora para o tema da educação interpessoal, que mais que nenhum outro aspecto da
educação, implica necessariamente no re-aprender, na reparação relacional, no
trabalho encaminhado para a mudança de conduta. Podemos dizer que, como no caso da compreensão
de si mesmo, esta reeducação vai mais além de fórmulas ou técnicas,
constituindo um aspecto potencial de cada momento de nossa vida.
No
currículo do SAT, um componente especialmente importante deste propósito de reparação
é o trabalho encaminhado para a recuperação do vínculo amoroso original com os pais.
Desenvolvi este trabalho muitos anos atrás, inspirado pelo que então levava a
cabo de forma individual um clarividente norte-americano, Robert Hoffman, que
por sua vez, refinou o processo grupal proposto por mim, originando o assim
chamado “Processo Hoffman da Quadrinidade”.
Já que
incluí neste livro o capítulo escrito anos atrás acerca de Hoffman e de seu enfoque
terapêutico na “A Agonia do Patriarcado”, chamando a atenção sobre o potencial
desta notável contribuição para a reeducação da capacidade amorosa para uma
educação futura, só direi aqui que o processo que implementamos no programa SAT
não é idêntico ao que oferecem os representantes do Instituto Hoffman
Internacional, mas as idéias básicas são as mesmas. Já que o vínculo amoroso
com o pai e a mãe se vê afetado na maior parte dos indivíduos, pela interferência
de um ressentimento, consciente ou inconsciente que requer ser sanado e isto,
por sua vez, requer a tomada de consciência completa da dor, assim como a
catarse da raiva
reprimida.
Somente desta forma pode-se pretender chegar, através da compreensão e compaixão,
ao perdão e à benevolência espontânea.
Do
restante das relações de nossa vida, nenhuma é comumente mais importante que a relação
de casal, e as relações amorosas também recebem uma atenção específica no
programa SAT através de um curso dedicado ao aproveitamento das dificuldades
nas relações de parceria para o trabalho de evolução pessoal. E complementam os
trabalhos mencionados aqueles em que se atende à elaboração de outras situações
interpessoais pendentes – o que se realiza através de oficinas de Gestalt e do
laboratório de psicoterapia integrativa.
O
programa oferece suficiente oportunidade de experimentar a terapia gestáltica e
de aprendê-la, se há interesse, como um curso de aperfeiçoamento para muitos
gestaltistas já formados. Esta ênfase em uma escola determinada de psicoterapia
bem poderia parecer arbitrária em uma época em que as escolas de
psicoterapeutas se multiplicaram e a Gestalt perdeu a proeminência que teve
umas três décadas atrás, porém, por mais que a Gestalt constitua uma de minhas
especialidades, creio que a escolha desta modalidade terapêutica (acima da PNL
ou da AT, por exemplo), justifica-se plenamente por sua universalidade, sua utilidade
para terapeutas ecléticos e, muito particularmente, por sua relevância na
educação.
Justamente
porque a Gestalt é um meio muito plástico e muito criativo de abordar a vida emocional,
já foi eleita como complemento terapêutico mais relevante para a instrução por George
Brown, que há décadas atrás foi decano da Escola de Educação da Universidade da
Califórnia
em Santa Bárbara.
Brown foi fundador, muitos anos atrás (com o apoio da
Fundação Ford) de um projeto que chamou Confluent Education (Educação Confluente)
no qual se adotou a Gestalt para a preparação de mestres que tivessem, além da
capacidade de ensinar, a de haver-se com o que ocorre humanamente no aqui e
agora, tanto em si próprios como com os estudantes. Para poder, por exemplo,
perguntar a alguém de cara feia, o que se passa, sem medo de não saber o que
fazer com a realidade de sua experiência. Isto implica em uma formação (caracteristicamente
posta em relevo na Gestalt) que lhe permita entrar em um encontro verdadeiro;
de poder fazer um parêntese no processo de instrução quando for necessário
atender a realidade afetiva e interpessoal do momento.
Quero
sublinhar a grande relevância da terapia Gestalt para a educação assinalando
que, quando Perls ensinava nos EUA através do Instituto Esalen, muitas vezes
não anunciava suas oficinas como psicoterapia, mas falava de “educação da
expressividade”, “educação atencional”,
“educação
do estar presente”, etc. A capacidade que a Gestalt pretende educar é tão
universal que nem sequer a apreciamos devidamente: saber o que se passa conosco
e ser capazes de “estar aqui”. E, não obstante é algo tão difícil que só os
buscadores avançados, as pessoas que
já têm
um certo caminho andado apreciam devidamente e compreendem cabalmente o que é isso
de cultivar o estar presente. Muitas vezes perguntei às pessoas nos grupos com
que trabalho “O que você busca?”, “O que conseguiu?”, “Onde está?” E comprovo
que só os mais maduros respondem que seu empenho é estar mais presentes.
O
laboratório de psicoterapia integrativa a que me referi é um dos aspectos mais significativos
e originais do programa SAT, pois através dele os participantes adquirem rapidamente
uma capacidade de ajuda que não se apóia em conhecimentos teóricos, mas na experiência,
na compreensão de que as capacidades humanas tais como a de escutar, compreender
o que se diz e querer o bem do outro. À parte o benefício que isto possa trazer
para outros, o exercício terapêutico dos aprendizes ao longo da série graduada
de exercícios terapêuticos que compreende este programa prático, resultou um
apreciável benefício dentro do próprio grupo, estruturado de tal maneira que
cada pessoa recebe terapia de um companheiro e a oferece a outro em uma
situação supervisionada. Além do benefício terapêutico que se consegue para cada
membro do grupo nesta situação, a experiência deste laboratório – com suas
sessões grupais de comentários que promovem um clima generalizado de
transparência – contribui significativamente para a formação de uma verdadeira
comunidade. E é assim como freqüentemente, ao finalizar o programa, ouve-se
dizer aos que compartilham suas impressões retrospectivas que sua vida não será
a mesma depois de terem se sentidos tão aceitos, acolhidos, compreendidos ou
queridos por seus companheiros.
Este
aspecto do programa me parece uma de minhas
contribuições mais inovadoras e surpreendentes por sua efetividade,
apesar de que, passo a passo, durante sua elaboração, longe de sentir-me
original, apenas tentei formular exercícios inspirados nos aspectos mais universais
da psicoterapia. Só ao tomar consciência de que não existe (que eu saiba) um programa
tão breve e efetivo, pareceu-me original, e está claro que o centro desta
originalidade consiste em que se possa aprender a fazer psicoterapia sem mais
que breves formulações teóricas – levando adiante a proposta de Rogers de que
os aspectos determinantes na atividade do terapeuta são a empatia, a
benevolência e a autenticidade.
A mim
parece que a psicoterapia complicou-se muito; mistificou-se muito ao colocar em
relevo coisas que não são as fundamentais. E penso que as determinantes fundamentais
de uma boa psicoterapia são principalmente pessoais, e não técnicas nem
teóricas. Talvez a principal seja que o terapeuta entenda o que se passa com o
outro; se o terapeuta entende o que se passa com o outro, não é necessário
sequer que o diga, porque isto tem um efeito quase mágico: o outro sabe
intuitivamente e se sente entendido.
Também
é importante que o terapeuta se interesse pelo bem do outro, que seja benevolente.
E também isto o fará sentir, independentemente de que o expresse com fórmulas
do
tipo “Sim, estou contigo, te escuto” ou não o expresse; talvez seja de melhor
gosto não expressá-lo, quando é um excesso fazê-lo. Não menos importante é a
autenticidade; faz-se terapia pela verdade e através de um chamamento à verdade
do outro.
Porém
estas três coisas – a capacidade do terapeuta de ser autêntico para assim
induzir a autenticidade do outro; a capacidade do terapeuta de interessar-se
pelo outro; e a capacidade do terapeuta de entender o outro – são coisas que
não se cultivam nas universidades. Não se cultivam lendo livros nem se cultivam
através de laboratórios técnicos:
cultivam-se através de um processo pessoal e creio que esta é a hora de mudar
de orientação.
Enumerei
algumas influências que se fazem sentir fortemente no programa SAT – como Gurdjieff,
Ichazo, Perls, Hoffman e Rogers -, sem mencionar que boa parte do ensinamento
da meditação através dos módulos sucessivos do programa se ajusta às três
tradições fundamentais do Budismo: a antiga tradição Theravada (representada
principalmente pelo Vipassana), o Mahayana (representada pelo Budismo Zen), e o
Vajrayana ou Budismo Tibetano. É justamente a concepção pedagógica da Escola
Nyingmapa, do Budismo Tibetano, que inspira o programa de meditação em seu
conjunto – desde seu começo com o Vipassana, sua continuação com o Shamata ou
pacificação da mente, como fundamento para a indagação vivencial acerca da essência
da consciência, só que, tendo sido discípulo de um mestre altamente criativo –
Tarthang Tulku Rimpoche –, permitiu-me também certa criatividade no relativo a
outros aspectos da meditação (como a visualização, o devocional e o
desenvolvimento da compaixão) ao substituir as formas tradicionais por
aplicações inovadoras da escuta musical, como bem se poderia esperar das
aplicações para a meditação e para a psicoterapia de alguém que foi músico
antes de ser médico – o que explica que outro dos componentes que se faz sentir
através do programa SAT seja a música.
Seria
demasiado longo explicar aqui cada um dos elementos que integram o programa SAT,
se bem que alguns dos que apenas mencionei são originais e mereceriam um livro
à parte – como, por exemplo, o laboratório de psicoterapia que desenhei não só
com um propósito de treinamento, mas como uma forma de configurar um sistema
grupal auto-reparador. Outra disciplina que surgiu no desenvolvimento de nossos
cursos – como um encontro entre minha iniciativa e a perícia de alguns
discípulos colaboradores – foi uma forma de teatro terapêutico que integra
tanto o elemento gestáltico como a psicologia dos eneatipos.
Um
componente adicional do programa foi o trabalho psicocorporal, cuja essência é
a consciência do corpo e que leva tanto à correção postural como à melhora na
fluidez do movimento, que abunda em implicações tanto psicológicas como
espirituais. Através de muitos anos de experimentação, recorri a elementos
muito variados que vão desde o yoga e o tai chi até a eutonia, privilegiando
ultimamente o método de Rio Aberto e o movimento autêntico. Também pertence ao
âmbito psicocorporal um trabalho desenvolvido por discípulos mexicanos
(Chalakani
e
Kretzschmer), que combina a técnica do “renascimento” com a regressão a estes
estados que Grof propôs chamar “matrizes pré-natais”.
Deixo
aqui o comentário acerca dos principais componentes do programa SAT – comentário
que naturalmente, não basta para dar uma idéia do que o conjunto gera, ao ser posto
em prática, um processo de fecundas interações e, portanto, um sistema vivo que
vai além de suas partes. A partir de um ponto de vista diferente, poderia ter
falado deste processo como “uma máquina de moer egos”, uma iniciação para um
caminho de desenvolvimento espontâneo que jaz em nós mais além de ideologia
alguma, ou uma escola viva, cuja essência se encontra mais nas pessoas que
ensinam do que num currículo explícito.
Existem
aqueles que falaram da escola SAT como uma escola de amor, como um lugar em que
se aprende a ser mais humano e mais verdadeiro. Para muitos, significa um descobrimento
da dimensão espiritual da vida. Um grande número de participantes deixa para trás
velhas maneiras de sentir e de ver as coisas, e sentem que sua vida toma outro
rumo. É para a maioria, uma entrada num caminho de transformação e para os mais
comprometidos, um atalho considerável do caminho.
Um
aspecto importante do Programa SAT é de natureza psicossocial: o grupo de participantes
se torna um grupo de verdade no qual cada um pode mostrar-se como é, explorar condutas
alternativas e descobrir que é aceito e querido além de seus papéis habituais.
Porém o programa SAT não somente é um processo em que as pessoas se sentem aceitas
e validadas, pois existe também um forte elemento de confrontação e eu diria
que estão bem equilibrados o aspecto nutritivo com a proposta de uma “guerra
santa contra o ego”.
Em
alguma ocasião convidei um grupo de colegas a compartilhar o que a “experiência
SAT” havia sido para eles, e me chamou a tenção a ênfase que deram a como havia
sido um presente para os participantes ter o exemplo de docentes que “trabalham
sobre si mesmos” ao invés de isolar-se por trás de um rol profissional.
Quando
hoje em dia se reconhece amplamente que a psicoterapia depende mais da relação
do que da técnica ou mesmo do insight, no fundo do que se fala é da benevolência do terapeuta, que permite que ele
“acolha” seus pacientes de uma forma que seus pais não souberam fazê-lo. Menos
amplamente se reconhece o valor terapêutico da autenticidade, que me parece, um
ingrediente fundamental desta escola viva.
Observou-se
reiteradamente como a prática terapêutica oferecida no Programa SAT interessa e
serve tanto para terapeutas de alto nível como a principiantes, e que cada um
dos cursos é “quase um milagre” pelo muito que ocorre e pelo muito que se
aprende. Parece-me que, efetivamente, assim o é, e considero tal êxito uma
confirmação experimental de minha convicção inspiradora: que para ajudar os
outros não são necessários longos estudos, mas a experiência da própria viagem
interior através do autoconhecimento e do esforço realizado: um treinamento
prático vivencial relevante, uma visão clara de certas coisas fundamentais e a capacidade
de encontro com o paciente. Pela proeminência desta última na prática
educacional que desenhei, falamos às vezes de aprendizagem graças a uma “cura
pela verdade”.
Termino
com uma consideração acerca de como nosso mundo enfermo e em crise necessita do
apoio para a transformação individual: a sociedade saudável se faz com
indivíduos saudáveis, e não podemos esperar que a necessidade de
auto-realização venha a ser satisfeita mais que em parte pelas vias
tradicionais. Faz-se desejável algo assim como uma democratização da
psicoterapia ou, mais amplamente, uma educação em como trabalhar espiritual e psicologicamente
em si mesmo, e em como ajudar-nos uns aos outros.
Dificilmente
podemos esperar um mundo melhor sem mudar nossa educação, tornando-a algo
relevante para o desenvolvimento psicoespiritual. E para mudar a educação é
necessário injetar algo novo na formação de educadores.
Expliquei
como surgiu o Instituto SAT em resposta ao interesse de um grupo de buscadores
na Califórnia durante os anos 70, e como renasceu, anos depois na Europa, em resposta
ao interesse dos terapeutas. Muitos educadores assistiram aos cursos, porém só ultimamente
as instituições começam a se interessar, e isso me enche de alegria, porque me parece
haver desenvolvido algo que, através do auspício dos educadores, promete ser de
grande utilidade pública; e sonho que meu “invento” possa algum dia contribuir
para que tenhamos um mundo mais favorável para os que vêm depois.
Imagino
que a maioria estará de acordo que, se queremos um mundo diferente, dificilmente
vamos consegui-lo somente com política, ou meramente através do progresso espiritual
ou terapêutico de indivíduos isolados. E nem sequer através da formação
psicoespiritual independente de mestres: será necessário o compromisso de
universidades e o financiamento de programas dirigidos às equipes de docentes
de escolas específicas, para que, transformando-se em grupos verdadeiros,
cheguem a constituir um ambiente favorável ao exercício de capacidades atualmente
desaproveitadas dos docentes, assim como a expressão e livre desenvolvimento
dos alunos.
Que
isto não acontece agora me é visível pelo fato de que muitos professores que passaram
por nosso programa me dizerem que, apesar do grande benefício pessoal que lhes trouxe
e das novas capacidades assistenciais adquiridas, de pouco lhes serve o que
aprenderam e viveram quando retornam aos seus ambientes de trabalho. E não
duvido que muitos demonstraram no curso do trabalho grupal uma grande
capacidade de ajuda para o desenvolvimento dos demais; porém sentem que o
ambiente das escolas é incompatível com uma expressão plena da humanidade e que
não favorece a manifestação de suas capacidades, como se o sistema estivesse
lutando com a consciência.
Suspeito
que, apesar de constituir uma aberração pouco visível para a consciência do grande
público, o fracasso da educação é a maior tragédia de nosso tempo. Critica-se o
capitalismo e o complexo militar-industrial, e isto é bom, porém também cabe
responsabilizar o sócio invisível do complexo militar-industrial, que é a
inércia institucional do sistema educativo.
É
trágico porque a educação, dentre todas as instituições humanas, deveria ser a responsável
por velar pelo desenvolvimento humano. E não só atravessamos um momento histórico
em que nosso estancamento psicoespiritual tornou-se crítico, mas, além e,
sobretudo, estamos no mundo para florescer e frutificar, quer dizer, para
desenvolver nossa consciência.
É de
estranhar então, que nosso subdesenvolvimento em matéria de humanidade se expresse
num sem fim de distúrbios e sintomas?
Os que
leram meu livro “A Agonia do Patriarcado” conhecem minha opinião de que a crise
universal que caracteriza nosso tempo, abarcando desde as finanças até a
ecologia e a qualidade de vida, é no fundo uma crise pela escassez de amor e
sabedoria – o que equivale a dizer um descuido do desenvolvimento. Os
educadores parecem albergar muito boas intenções, porém seu afã nos oculta a
resistência da instituição à mudança radical. No Chile fui secretário privado
de um Ministro de Saúde no começo de minha carreira, e me dei conta do quão
fácil é perder-se na política, mesmo com as melhores intenções. Convém ter
presente que, assim como existe uma patologia individual, existe também uma
patologia do sistema; uma espécie de espírito do sistema, o ego social maligno.
E assim como acontece no caso do ego individual, sua destrutividade repousa em
uma inconsciência. Como Cícero observava (não me recordo de suas palavras
exatas): “Cada senador é um grande homem, porém o Senado em seu conjunto é um idiota.”
Assim, pois, e apesar de que muitos políticos tenham as melhores intenções, a
política é uma máquina infernal, e nem sequer as melhores intenções bastam para
mover montanhas.
Talvez
ocorra assim com a educação, não sei. Porém, a inércia institucional que faz da
educação um imenso “elefante branco” é maior e, sobretudo, muito mais temível
do que se pensa, e o fato de que esta “inércia burocrática” não pareça sê-lo,
somente a torna ainda mais poderosa.
Creio
que o público em geral e os educadores em especial devam adotar uma atitude revolucionária,
pois já não há lugar para outra. Espero que entre todos possamos influir para
que as autoridades empreendam outro rumo. A educação serve para o
desenvolvimento humano, por muito que se queira usar para outras coisas também,
e por muito que a inércia de nossa plutocracia pseudodemocrática exija uma
educação para a docilidade automática e para a produção, creio que uma educação
para a livre realização de nossas potencialidades evolutivas e criativas pode
ser crítica para nossa sobrevivência coletiva.
Mudar a educação para mudar o mundo – cap.6
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Uma educação do indivíduo inteiro para um mundo unificado.
Claudio Naranjo
“Quase
toda educação tem uma motivação política: propõe-se a fortalecer algum grupo,
nacional, religioso ou social na competição com outros grupos. É esta motivação
o que principalmente determina que matérias são ensinadas, que conhecimento é
oferecido e que conhecimento é ocultado e que determina ademais que hábitos
mentais se espera que os pupilos cultivem. Praticamente nada se faz em função
do desenvolvimento interior da mente e do espírito; com efeito, aqueles que
receberam mais educação sofreram com freqüência uma atrofia mental e
espiritual.”
Bertrand
Russel, em Grace
Llewelyn, Op. cit.
“Mais vale pouco conhecimento de coisas
superiores do que muito conhecimento de coisas inferiores.”
Tomás de Aquino
Fala-se muito hoje em dia de uma
“mudança de paradigma” na ciência e, mais geralmente, no modo de compreender o
mundo e o ser humano. Qual é esse novo paradigma, que invocam tanto a nova
física como a psicologia contemporânea, e como, de um modo mais ou menos
implícito, está afetando praticamente todos os campos do saber e do fazer?
Podemos chamá-lo “holismo” ou
“integralismo”: um enfoque centrado no todo. Esta é a perspectiva que subjaz a
inspirações tão diversas como a teoria geral de sistemas, o enfoque sistêmico
da ciência da administração e a gestão de empresas, o estruturalismo, e a
psicologia da forma. A característica mais chamativa de nossa época é uma nova
maneira de conceber as estruturas, a organização, a inter-relação das partes em
um todo. A vida e o universo se nos
apresentam hoje em dia como
meta-estruturas evolutivas.
Há uns dois mil e quinhentos anos, o
Buda contava a história de alguns cegos que faziam uma idéia do que era um
elefante tocando-o. Assim, um o comparava a uma palmeira, outro a uma corda,
outro a um leque, etc., segundo suas mãos exploravam uma pata, o rabo, uma
orelha, ou outras partes do animal. Esta história, adotada mais tarde pelos
sufís, tornou-se particularmente popular hoje em dia e com razão, pois,
expressa o florescimento no espírito de nosso tempo de uma compreensão cada vez
mais generalizada de que o todo é, efetivamente, algo além da soma de suas
diversas partes.
Esta mudança de perspectiva sobre o
mundo é, sem dúvida, reflexo de um processo vivo: se no âmbito intelectual
estamos em uma época de holismo, em termos mais gerais pode-se dizer que
estamos numa era de síntese. Não só nos tornamos mais interdisciplinares, mais
ecumênicos, mais interculturais, mas também, cada vez mais, vamos sentindo a
necessidade de nos tornarmos pessoas completas em um mundo unificado.
A educação holística, como o enfoque
holístico da realidade em geral, é parte dessa tendência sintetizadora que está
em marcha. Foi
Rousseau, pai do romantismo e avô da revolução francesa, o
primeiro a chamar a atenção sobre a importância capital da educação dos
sentimentos. Em seguida outros, como Dewey, Maria Montessori e Piaget, puseram
a ênfase na aprendizagem através da ação. Por outro lado Steiner e as Escolas
Waldorf, nascidas de sua
obra, insistem no desenvolvimento da
intuição e no que agora chamamos educação transpessoal. Mais recentemente, o
Movimento do Potencial Humano induziu a experimentação na educação do “âmbito
afetivo”. A Educação Holística se propõe a reunir todas essas vozes dispersas,
como projeto que pretenderia abarcar a
totalidade do indivíduo: corpo, emoções, intelecto e espírito.
Apesar de poder chamar-se holística no
sentido de pretender educar a pessoa inteira, creio que a educação deveria ser
holística também em outros aspectos: por exemplo, por perseguir uma integração
dos conhecimentos, por seu interesse a integração intercultural, por sua visão
planetária das coisas, por seu equilíbrio entre teoria e prática, por colocar a
atenção tanto no futuro como no passado e no presente. Um assunto
particularmente crítico há de ser, naturalmente, o equilíbrio dos aspectos “paternos”,
maternos” e “filiais” do indivíduo. Por isso inclino-me a falar de “educação
integral” em referência ao holismo educacional que está surgindo, e ao que pessoalmente
me vinculo.
Enquanto nos EUA as coisas foram
evoluindo desde a “revolução da consciência” até o conservadorismo crescente da
década de oitenta, a idéia de uma educação integrativa e compreensiva pode
deparar-se com a pergunta de se acaso isto não constitui um luxo. Sem referir-se
especificamente à educação, por exemplo, Yankelevich escreveu em seu livro, publicado
recentemente, New Rules, que a situação mundial está se tornando tão crítica e
a situação individual vai tornar-se tão difícil, que já não é tempo de
continuar buscando a “autorealização”. Os dias do Movimento do Potencial
Humano, segundo ele, devem ser considerados como coisa do passado, como reflexo
da situação da abundância transitória que existia quando surgiu.
Creio que devemos nos guardar de
semelhante ponto de vista, que não é mais que uma regressão à atitude
excessivamente prática e “realista” que está na origem da problemática atual.
É precisamente a urgência dos problemas
com os quais nos vemos hoje em dia confrontados como espécie, o que converte em
imperativo, e não em um luxo, o acometer sob um novo enfoque a tarefa
educativa. Como dizem Botkin e outros em seu Informe ao Clube de Roma No Limits to
Learning1:
“Depois
de uma década discutindo temas gerais, alguns sinais de mudança se fazem notar
nos debates. A maioria dos participantes em extensas conferências centradas em propor
novos modelos de construção do mundo sentiu que faltava nos diálogos um elementar
sentido crítico. A preocupação pelo aspecto material da problemática mundial havia
diminuído efetividade nas considerações. Agora se faz evidente uma nova preocupação:
a de voltar a colocar o ser humano no centro dessa problemática. Isto supõe uma
mudança, no sentido de deixar de considerar os problemas globais como manifestações
de problemas físicos de sobrevivência material (Life Support Sistem), para começar
a aceitar a importância proeminente do aspecto humano de tais problemas”.
Estes escritores falam da “brecha”
(Human Gap) com a qual se vê enfrentado o ser humano – a distância entre a
crescente complexidade dos problemas e sua capacidade para lhes fazer frente –
e acreditam que essa brecha pode ser preenchida utilizando-se como ponte a aprendizagem:
“A
aprendizagem, neste sentido, vai além de ser um tema geral a mais. O fracasso neste
campo constitui atualmente, de um modo fundamental, o tema central da problemática
mundial. Em resumo, aprender se converteu em um assunto de vida ou morte.”
Eu prefiro, pessoalmente, insistir no
“desenvolvimento” e dizer que continuamos como lagartas, recusando-nos a nos
convertermos em borboletas, acabaremos destruindo nosso meio ambiente e
devorando-nos uns aos outros. Falando de outro modo, não podemos nos permitir continuar
deixando de lado, como mera possibilidade, essa transformação do ser humano que
se deu de fato em outras épocas. O que em outros tempos foi só destino de uns
poucos e pode parecer um luxo no passado, agora se apresenta com
características de urgência coletiva. Hoje[1]
em dia o crescimento do poder de que pode dispor o ser humano amplifica os
efeitos das falhas que comete em seu exercício, e as conseqüências resultam
inevitáveis para uma população que ameaça superar os limites da capacidade do
planeta. Em tudo isto, não podemos deixar de ver a expressão de uma psique
desenvolvida só de um modo muito incompleto.
A psicologia do ser humano ordinário – a
psicologia que tenderíamos a chamar “normal” – é, psicanaliticamente falando,
regressiva. Sob a capa de pseudo-abundância que mostramos ao mundo, e com a
qual talvez nos identifiquemos, nossa motivação brota geralmente do que nos falta:
somos cobiçosos, sentimo-nos insatisfeitos, dependentes. Em outro tempo, nos
tempos de nossos antepassados Cromagnon, éramos canibais, porém a julgar pela
marcha dos assuntos internacionais continuamos sendo implicitamente. Os gastos
militares do mundo em 1979 excederam a quantidade de bilhões de dólares por
dia, e em anos posteriores, em que a escassez e a superpopulação se tornaram
mais ameaçadoras, não fizeram mais que aumentar. Isto seria necessário se não
fôssemos a nível inconsciente uma sociedade paranóide e
canibalística? Não seria razoável
dedicar esta soma a um programa de restauração da terra, que incluísse como
mais urgentes as necessidades de atenção ecológica e de desenvolvimento da consciência?
Nossa vida coletiva, já na aurora da
pré-história, conheceu metas que estimularam nossos antepassados a evoluir,
porém também traumas que nos precipitaram em um “abismo” de patologia
psicossocial. A motivação carencial – e a conseqüente exploração do próximo, da
natureza e de si mesmos que dela se deriva – perpetuou-se por contágio,
infectando uma geração após a outra, o psiquismo dos seres humanos que nos
precederam, de modo que atualmente nos vemos empurrados por ela para um
iminente naufrágio, do qual só poderemos nos salvar se soubermos nadar, e
utilizo a metáfora de “nadar” para nomear a nova consciência capaz de nos
deslocar “daqui” para ”lá”, do condicionamento milenar e obsoleto de que
estamos padecendo, frente a uma nova ordem mundial.
Longe de constituir um luxo, uma nova
educação – uma educação da pessoa inteira para
um mundo total – é uma necessidade
urgente, e é também nossa maior esperança: todos os nossos problemas se
simplificariam enormemente só com o poder alcançar uma verdadeira saúde mental,
já que esta traz consigo uma autêntica capacidade de amar. Como dizia
Krishnamurti há
anos atrás, “a paz individual é a base
sobre a qual se assenta a paz do mundo”.
Hoje, no entanto, vive a maior parte das
pessoas que formaram parte de uma geração de buscadores talvez só comparável à
daqueles que conheceram os primeiros tempos do cristianismo ou o surgimento de
outras grandes religiões. Este fenômeno cultural, que explodiu nos Estados
Unidos há uns trinta anos, atravessou um período de expansão entusiasta e outro
de apagamento desencantado, e isto reflete a estrutura de um processo
psicológico. Passado todo aquele bem conhecido entusiasmo ao iniciar o caminho,
quando parecia que logo o mundo inteiro estaria transformado, uma fração
considerável daquela juventude norte-americana avançou até a igualmente bem
conhecida etapa de dar-se conta que – como Gurdjieff costumava
dizer – “no começo são rosas, rosas,
rosas; em seguida, espinhos, espinhos, espinhos”. Toda uma geração, praticamente
falando, embarcou naquela busca; não obstante, até agora não temos visto como
resultado uma sociedade transformada, mas somente um punhado de aprendizes de
bruxo em diversos graus de desenvolvimento: indivíduos só aparentemente transformados,
que têm alguma contribuição a dar a partir de sua experiência e que agora sabem
que a viagem é muito mais dura e longa do que haviam pensado.
Se for tão difícil transformar um
adulto, pode resultar mais proveitoso começar com os jovens. Se pensarmos em termos
de uma perspectiva global, tendo em conta as necessidades mais vitais que nos
acossam como habitantes desta terra, a educação, e em particular toda ajuda que
possa ser prestada ao crescimento dos indivíduos humanos durante sua etapa de
maior plasticidade, sobressai dentre todas as estratégias possíveis como a mais
adequada para poder intervir conscientemente em nossa própria transformação
evolutiva. Certamente, é também a mais econômica, em um tempo onde o fator
econômico é crucial.
Hitler descobriu, em seu momento, que
controlando a educação podia controlar a sociedade. Poderíamos resgatar a
verdade que se esconde nesta percepção, assentando-a sobre uma base verdadeira,
pois não é através de um “controle” que poderemos alcançar o fim que perseguimos,
mas através de atitudes de atenção, habilidade e afeto, e mais que nada pela qualidade
do próprio ser. Somente dotando os jovens da possibilidade de converterem-se em
seres humanos completos podemos esperar um mundo melhor. Se temos que
“controlar” a educação, necessitamos entender que este controle deve colocar-se
a serviço da liberação dos indivíduos – na realidade, seria um contra-controle.
Para muitos de nós é familiar o slogan:
“Formar os homens que a pátria necessita”. Se atentarmos ao sentido implícito
desta expressão, formação aqui vem a ser sinônimo de socialização em termos
gerais, quer dizer, educação concebida como veículo de condicionamento social.
Porém se falamos de formar homens que o mundo necessita, devemos admitir que
então, necessariamente, não se tratará de educar a partir e para o conformismo,
mas para a liberdade e autonomia, pois um “mundo” verdadeiro só será possível
se contar com autênticos indivíduos.
Escrevendo depois de Darwin, Herbert
Spencer comparava a sociedade a um organismo – idéia que geralmente deixaram de
lado os sociólogos posteriores. Realmente, nossa sociedade dista muito de ser
um organismo, e nisto temos avançado menos que as abelhas e as formigas.
Uma sociedade que fosse com respeito ao
indivíduo o que o cérebro é para as células que o constituem, teria que
cimentar-se na existência de seres humanos maduros, isto é, seres integrados e
em vias de auto-realização, e não essa espécie de robôs humanóides que a partir
de sua cegueira e outros males fomenta nossa sociedade. Pode-se dizer que uma
educação orientada para o indivíduo inteiro está por si só orientada para uma
totalidade mais vasta, é “uma educação para um mundo unificado”, e quis pôr em
relevo esta idéia incluindo-a no título deste capítulo. Em primeiro lugar para
sublinhar a tese de que “uma educação da pessoa inteira é uma educação para o
mundo total”, e também pelo quão saudável pode resultar o acentuar
especificamente a finalidade metapessoal. Além disso, esta é uma idéia
inspiradora: se nos tornamos conscientes do quanto necessitamos de uma educação
orientada para a paz e para a unidade mundial, talvez essa consciência possa suscitar
a capacidade de contribuição criativa correspondente a esta finalidade. Um
indivíduo não pode verdadeiramente considerar-se completo se carece de uma
visão global do mundo, se não possui um sentimento de irmandade. Necessitamos
uma educação que leve o indivíduo até este ponto de maturidade e no qual,
elevando-se acima da perspectiva isolada do próprio eu e da mentalidade tribal,
alcance um sentido comunitário plenamente desenvolvido e uma perspectiva planetária.
Necessitamos uma educação do eu como parte da humanidade, uma educação do sentimento
de humanidade.
O despertar espiritual que forma parte
de nosso destino potencial não supõe somente o nascimento do “eu”, mas também o
parto do “tu”. O nascimento do Ser supõe o nascimento do eu-tu, o dar a luz do
sentido do “nós”.
Como a educação pode contribuir para
criar o sentido do nós? Não somente através de uma atitude distante de todo o
bairrismo e aberta para uma visão universal das coisas, mas, antes de tudo e
sobretudo, por meio de uma capacitada aplicação de técnicas de liderança comunitária,
isto é, prestando uma assessoria experimentada acerca dos processos de formação
de grupos no verdadeiro sentido da expressão.
Para Carl Rogers, os grupos são
possivelmente o invento mais significativo do presente século. O futuro dirá.
Porém em todo caso, constituem um recurso muito importante, e creio que todo
educador deveria adquirir um repertório de habilidades que incluem, entre
outras, a capacidade de facilitar uma comunicação sincera entre seus alunos –
responsabilizando-se por suas conseqüências -, a capacidade de reconhecer e expressar as
próprias percepções, tanto de si mesmo como dos outros, e a de desenvolver sua
própria empatia e manter-se afastado dos jogos do ego. Este processo não
deveria, entretanto, limitar-se à celebração de grupos de encontro ou outros de
índole semelhante, mas constituir melhor o contexto de uma situação educativa.
Existem duas classes de grupo que por representar outras tantas formas
poderosas de atividade comunitária quero sublinhar especialmente. Um é o grupo
de tarefas, que oferece uma situação ideal para a aprendizagem do trabalho em
colaboração assim como para desenvolver a consciência de tudo o que a
dificulta. O outro, os grupos de tomadas de decisões, que além de oferecer aos
participantes um claro reflexo de seu caráter, constituem talvez o instrumento
mais fundamental de que dispomos em direção a uma educação para a democracia.
Ao aplicar todos esses recursos, devemos
ter presente que, na situação que atravessamos, crescimento e cura são
inseparáveis. Só artificialmente cabe separar o campo da educação do da
psicoterapia e das disciplinas espirituais, pois realmente não existe mais que
um único processo de crescimento-cura-iluminação. O tabu que se opõe à
introdução da psicoterapia na educação deve ser entendido como o sintoma
regressivo e defensivo que é na realidade: se continuarmos desatentos ao campo
afetivo na educação, continuaremos devolvendo ao mundo indivíduos fixados em
pautas infantis de conduta, sentimento e pensamento e, certamente, estaremos
nos afastando do objetivo de educar as pessoas para que possam desenvolver-se
em plenitude.
Depois de haver dito com tanto luxo de
palavras que, em verdade, chegou a hora de pôr em prática a idéia de uma
educação integral, quero agora expor, mesmo que parcialmente, qual é minha
visão do que poderia ser a educação do futuro. E ao começar a fazê-lo, não
posso deixar de recordar o ensaio que Aldous Huxley dedicou ao tema: “Sobre a
educação de um anfíbio”. As observações e sugestões que seguem não são outra
coisa que uma atualização do convite pioneiro que Huxley lançou em prol de uma
educação holística há mais de trinta anos.
Não é preciso dizer que a nova educação
será dirigida ao corpo e às emoções, à mente e ao espírito. Porém de que
maneira e valendo-se de que instrumentos?
Com respeito à educação física, sabemos
hoje em dia o suficiente para reconhecer que à parte o treinamento desportivo e
outros meios de manter uma adequada forma física, existem outras formas mais
sutis de trabalho corporal. É o campo do que o Dr. Thomas Hanna designou como
“Novas Somatologias”. Poderíamos falar de um trabalho corporal externo e
interno, seguindo a aplicação que destes termos se faz nos esportes. O novo que
é preciso adicionar à educação física tradicional tem a ver com a atitude e a
atenção, e, além disso, isto seria aconselhável incorporar ao currículo algumas
formas de treinamento sensório-motor. Podem resultar excelentes e apropriadas,
não somente certas técnicas de trabalho com base no movimento corporal, como a
da “Autoconsciência pelo Movimento” de Feldenkreis, a “Eutonia” de
Gerda Alexander ou a educação
psicomotora relacional, com também outros enfoques mais tradicionais como o
Hatha Yoga e o Tai Chi Chuan.
Outro campo, relacionado também com a
vertente física do complexo humano, e também necessitado de atenção, é o
relativo ao que poderíamos chamar destrezas, seja no campo do cuidado
doméstico, da arte culinária ou do artesanato em geral. Se o lado psicopatológico
interfere com a capacidade de mobilização para cumprir qualquer tarefa, é claro
que o cultivo de uma atitude saudável com respeito à própria atividade possui
um indubitável valor terapêutico. O trabalho manual oferece também uma ocasião
valiosa para desenvolver virtudes profundas como são a paciência e a capacidade
de auto-satisfação, só com que se nos saiba fazer captar o valor interior que esconde
qualquer forma de arte e aprendamos a usar a situação exterior para o próprio
crescimento como pessoa.
Passemos agora para a educação dos
sentimentos. Em primeiro lugar, temos que dizer que resultaria artificial
separar demasiado a educação afetiva do que pertence à educação das relações
interpessoais e, igualmente, tampouco podemos separar do todo o campo afetivo interpessoal
do tema do autoconhecimento. Segundo isto, quero assinalar que tudo o que está contido
sob a rubrica da educação interpessoal, chame-se autoconhecimento, auto-estudo
ou autocompreensão – esse alto ideal ardentemente assumido e predicado por
Sócrates -, é algo que os atuais modelos educativos marginalizam sistematicamente
em tempos que contamos com recursos suficientes para fazer de outro modo. É
hora de contar em nossos currículos com laboratórios de comunicação humana
modernamente concebidos onde se fomente e facilite a capacidade de
autocompreensão, em um contexto de conscientização interpessoal e aprendizagem
comunicativa, partindo dos muitos recursos disponíveis hoje em dia, desde o exercício
de livre associação que Freud introduziu, até os últimos refinamentos surgidos
dentro do movimento humanístico.
Certamente, necessitamos desenvolver, se
não recobrar, a capacidade de identificar os próprios sentimentos, assim como a
de expressá-los de forma autêntica e adequada. Não podemos nos permitir passar
desatenta a contribuição que representam as técnicas de dramatização e, mais
geralmente, de expressão para o desenvolvimento da vida emocional. Também é
importante neste aspecto um recurso procedente da concepção liberal da
educação: o contato com o patrimônio literário e artístico do mundo inteiro,
feito com o guia apropriado, constitui um legado recebido de coração a coração,
assim como a ciência e a filosofia são uma herança que se transmite de mente a
mente.
O mais importante que tenho a dizer, não
obstante, com respeito à educação no campo afetivo, poderia ser a necessidade
que temos de reconhecer que seu objetivo central é o desenvolvimento da
capacidade de amar.
Não cabe a menor dúvida de que a saúde e
todas as suas virtudes naturais concomitantes são inseparáveis da capacidade de
amar-se a si mesmo e amar aos outros. Assim, pois, temos necessidade de uma
pedagogia do amor. Contamos com informação suficiente para poder desenvolvê-la;
talvez o que estava faltando era um sentido de direção e a ocasião para aplicá-la
em um contexto educativo. Sabemos, por exemplo, que apesar da necessidade de proporcionar
calor, compreensão e segurança psicológica, e dar também ocasião para desenvolver
o sentimento comunitário, é necessário ocupar-se adequadamente da ambivalência infantil
com que cresce a maioria das pessoas em nossa sociedade como resultado
inevitável de ter tido como pais seres que foram tudo menos emocionalmente
maduros, felizes e produtivos. O potencial amoroso do indivíduo permanece
velado por seu ódio a si mesmo e por sua destrutividade, consciente ou
inconsciente, coisas todas surgidas em sua mais tenra história. Liberar-se delas,
como a estas alturas demonstra claramente a experiência psicoterapêutica, exige
alcançar uma compreensão intuitiva mais que puramente intelectual no re-exame
da própria vida, e ventilar toda a dor e frustração associadas às impressões do
passado para assim poder soltá-los. Certamente, tudo isto requer normalmente um
longo processo psicoterapêutico, todavia, ainda assim, hoje em dia pode ser
realizado em um tempo muito mais curto do que na época dominada pela
investigação psicanalítica.
Eu creio que tudo isto se deve em grande
parte ao tabu existente no campo educativo com respeito ao terapêutico, assim
como com respeito ao tema religioso. Estima-se que o campo educativo deve ser
distinto e não deve ser invadido por estes outros campos. É uma concepção um
pouco territorial, inundada na realidade por complicações compreensíveis, como
as que se produzem quando uma criança começa a falar no colégio de coisas que
se passam em casa. Estas
não são coisas que se possam manejar a nível local, a nível do próprio colégio.
Os professores, os diretores escolares, inclusive os burocratas da educação,
necessitariam contar com um apoio muito mais forte para poder tomar a
iniciativa de implantar na escola elementos que formam parte da metodologia –
da tecnologia poderíamos dizer – de que hoje dispomos para desenvolver e/ou
sanar as relações afetivas. Se a crise que padecemos é antes de tudo uma crise de
relações, uma crise em relação com a capacidade amorosa do ser humano, não
podemos continuar mantendo essa separação entre o terapêutico e o educativo,
nem podemos continuar identificando educação com uma instrução freqüentemente
irrelevante.
Talvez o recurso procedente do campo da
Psicologia Humanística que mais se tentou aplicar no contexto educativo, ao
menos nos Estados Unidos, foi o enfoque gestáltico (com o nome de “educação
confluente”). George Brown, professor de educação no campus de Santa
Barbara da Universidade da Califórnia, e
também gestaltista, conseguiu o apoio do Instituto Esalen e da Fundação Ford há
mais de vinte anos, e esteve distribuindo formação gestáltica a educadores de
um modo sistemático em todos estes anos, não tanto com a intenção de converter
a terapia gestáltica em uma parte adicional do currículo, mas com o objetivo de
dotar os professores de uma maior capacidade de aproximação experiencial da
verdade, de uma maior compreensão da condição humana, e uma maior habilidade de
manejar-se como pessoas frente
a outros seres humanos – tudo o que
supõe estar trabalhando no terreno fronteiriço entre o terapêutico e o
didático. Creio que a Gestalt merece ser recomendada como um recurso de primeira
ordem pela economia que representa: um contato ainda que breve, com a Gestalt
pode aumentar na pessoa este tipo de habilidades, ao desenvolver-lhe a
capacidade de estar aqui e agora. A maioria das pessoas vive sob um implícito
tabu que as impede de expressar o que está acontecendo no momento, de modo que
quando adquire a capacidade de tornar-se mais consciente e de assumir a
responsabilidade de sua experiência no aqui e no agora podem surgir mil coisas
novas. Esta é uma liberação impregnada de conseqüências. Quando alguém pode interromper
o que está acontecendo a nível discursivo para dizer, por exemplo, “Algo me
cheira
mal”, ou “Me sinto incomodado”, “Esta
situação está me aborrecendo”, deslocando assim a comunicação ao nível
interpessoal, é possível superar muitos estancamentos estéreis.
Algo semelhante poder-se-ia dizer da
A.T. (Análise Transacional), do Psicodrama, e de outras diversas terapias
contemporâneas. Mereceriam formar parte de um mosaico ideal de experiências e
contribuiriam tanto para o processo de desenvolvimento pessoal como para a formação
profissional dos educadores. Porém ao sonhar com uma possível educação do
futuro, quero sublinhar muito especialmente o enorme potencial que encerra para
a educação um enfoque terapêutico, todavia não muito conhecido nem sequer no
âmbito da terapia e que se conhece com o nome de Processo Fischer-Hoffman. Não
se originou no mundo acadêmico, mas no espiritual, e lhe concedo uma singular
relevância como remédio frente aos males patriarcais, pois constitui um método
especificamente dirigido para conseguir a integração do “pai”, da “mãe”
e o “filho” dentro do indivíduo. Também
é conhecido com o nome de “Processo da Quadrinidade”, por perseguir a
harmonização do corpo, das emoções, intelecto e espírito do indivíduo. Há mais
de dez anos, em um dos congressos internacionais de Gestalt realizado nos Estados
Unidos, eu o recomendei como algo sumamente apropriado para a formação de gestaltistas
e em geral como instrumento recomendável na formação de qualquer tipo de terapeutas.
Porém creio que o principal potencial deste método está no campo educativo. Consegue
com relativa facilidade plantar em pouco tempo uma semente de cura no que
constitui
a especialidade deste método: o campo
das relações do indivíduo com seus pais estejam estes vivos ou mortos. A idéia
é a mesma do quarto mandamento, já que o desamor, a ambivalência amorosa em
relação aos pais, a agressão consciente ou reprimida contra eles, perturba
todas as relações da pessoa com o mundo, e é o que (para usar a linguagem
psicanalítica) está por trás da “compulsão de repetição”, o transferir
interminavelmente para o presente atitudes aprendidas no passado. Ao se
restabelecer o vínculo amoroso com os pais (um vínculo amoroso que a maior parte
das pessoas nem sequer suspeita de haver perdido) se restabelece a
possibilidade de outro nível de amor por si mesmo e, por extensão, pelos
demais.
Se quisesse dizer que aspecto estaria
mais necessitado de reforma dentro do âmbito da educação do intelecto, seria
necessário apontar para algo bem diferente de tudo quanto se revisa e se
apresenta de ano para ano nos inumeráveis congressos de educação a nível
nacional e mundial, e ao qual se dedicam enormes somas. Tanto nos Estados
Unidos como em outros países, investem-se milhões de dólares em reformas
educativas que não tratam senão de reformar o currículo, a maior parte das
vezes com base em simples variações sobre os mesmos temas. O que se necessita
não é tanto modificar quanto condensar de um modo significativo o currículo
tradicional, com base em uma séria tarefa de seleção que apenas se começou a
realizar, e implantar o que eu chamaria uma ética de economia tanto de
recursos, como do tempo dos estudantes, de modo que a situação escolar possa
ser usada em proveito da criança de um modo mais frutífero a partir de uma
perspectiva mais atenta aos valores humanos.
Caberia esperar que com respeito à
vertente cognitiva da educação, haveria menos a dizer ou fazer em prol de sua
possível melhora, já que até agora a educação veio se centrando quase que
exclusivamente neste aspecto. Não obstante a educação, em seu aspecto
intelectual necessita ir muito mais além da mera transmissão de informação,
tanto se o objetivo é compreender melhor o mundo como se o que se pretende é
capacitar o indivíduo para levar a cabo tarefas especializadas.
O estender a educação além dos conteúdos
cognitivos, segundo estou sugerindo, nos confronta com a necessidade de
desenvolver a vertente informativa da escola de um modo muito mais eficiente do
que se vem fazendo até agora, simplesmente porque haveria muito menos tempo
para dedicar-se a isto. Necessitamos aproveitar ao máximo todo o potencial que
encerram os puzzles e os jogos, que constituem um meio ideal para a
aprendizagem precoce das matemáticas, estender toda a riqueza dos recursos audiovisuais,
explorar as possibilidades dos organizadores, etc. Creio
que, antes de tudo necessitamos o que se poderia chamar uma ética de brevidade:
não podemos permitir sobrecarregar a capacidade de armazenamento de nossos cérebros
com informações detalhadas sobre coisas ou aspectos não essenciais, mas devemos
nos concentrar ao máximo em questões realmente significativas, seja com respeito
à visão do mundo ou relativas à própria vocação ou preparação para o serviço no
seu meio. A sede de compreensão faz parte da natureza humana e necessita
alimentar-se de uma visão panorâmica do conhecimento. Seria, pois, aconselhável
e sábio pôr em obra um tipo de educação que unisse um equilíbrio entre
generalismo e especialização; isto é, uma educação capaz de promover habilidades
específicas sobre uma base de conteúdo geral. Isto em si implicaria uma certa educação
do chamado pensamento integrativo.
O que o panorama atual mostra como
insuficientemente recalcado na educação tradicional é o desenvolvimento de
habilidades cognitivas, como tais, mais além dos conteúdos da aprendizagem.
Além de aprender, precisamos, sobretudo, aprender a aprender. Inclusive se adotamos
uma atitude mais pragmática que humanista, chegamos à mesma conclusão. “A quantidade
de conhecimentos que alguém adquire em uma área qualquer de conteúdo não tem relação,
em geral, com um melhor desempenho da ocupação correspondente”, escreve o professor
Kilpatrick no Boletim da AHHP (Architectural History and Historic Preservation
Division). “A maioria das ocupações só requerem que o indivíduo esteja disposto
e seja capaz... O que distingue o indivíduo eficaz no desempenho de sua função
não é tanto a aquisição nem o uso de conhecimentos, mas as capacidades
cognitivas desenvolvidas e exercitadas no processo de aquisição e emprego
desses conhecimentos”. Aqui também necessitamos mudar nosso foco do externo
para o interno, do aparente para o sutil.
Para o desenvolvimento das capacidades
cognitivas existem novos recursos que a educação poderia incorporar hoje em
dia, instrumentos que vão desde os exercícios de pensamento lateral De Bono e o
treinamento da análise das pressuposições implícitas[2],
até o pensamento dialético e a educação não-verbal de Feuerstein e outros.
Quero destacar, não obstante, dois deles que, ainda não sendo novos, não devem
por isso cair no esquecimento. Refiro-me em primeiro lugar às matemáticas. Esta
é uma área de conteúdos de extraordinário valor na educação do raciocínio como
tal, como bem sabiam os educadores do passado. Se aspiramos conseguir um
equilíbrio entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro, temos que ter
muito cuidado para não descartar as matemáticas como se se tratasse de um
exercício acadêmico próprio do passado, tal como parece inclinada a pensar a
nova cultura centrada no hemisfério direito. Em segundo lugar, refiro-me à
música. Toda expressão criativa, através do meio que seja, pode ser considerada
como um meio para desenvolver a intuição, porém entre todas elas, a música se
sobressai, como de modo semelhante, entre todas as ciências sobressaem as
matemáticas. A música, como disse, Polanyi, é “matemática sensível”, e pode fazer
por nosso cérebro intuitivo o que as matemáticas podem fazer em favor do nosso
cérebro racional. Neste aspecto, pode ser que tenhamos algo que aprender com os
húngaros que, sob a direção de Zoltan Kodali, há algumas décadas, foram os
pioneiros no campo da educação musical e na observação de seus benéficos
efeitos sobre as crianças, com resultados mensuráveis quanto ao desenvolvimento
de sua inteligência. Existem também outros recursos disponíveis neste sentido,
dos quais poderiam tirar partido nossas escolas, tais como o sistema Orff e a
Eurritmia de Dalcroze.
Outro aspecto de uma educação centrada
no desenvolvimento da capacidade amorosa é o transpessoal ou espiritual. A
metade do quanto podemos fazer neste aspecto consistiria em promover o
desmoronamento do “ego”, ensinar a transcender o próprio caráter e oferecer
ajuda para atravessar o processo de liberação dos obstáculos interiores. A
outra metade deveria centrar-se no cultivo daquelas qualidades que constituem o
objetivo de toda forma de meditação, pois é bem sabido, e assim o predicam
todas as religiões, que o amor flui naturalmente da experiência mística.
Isto se enlaça com o tema da educação
transpessoal, isto é, a educação deste aspecto da pessoa que está além do
corpo, da mente e das emoções, e ao que tradicionalmente se dá o nome de
“espírito”. Começarei por referir-me à questão controvertida de se a religião
deve ou não ser ensinada em sala de aula. Houve um tempo em que a religião era
uma matéria obrigatória. Logo, a educação secular reclamou sua independência
frente à igreja, e isto supôs um passo avante no desenvolvimento da sociedade
moderna. Porém uma coisa é tornar-se independente da autoridade de uma
determinada hierarquia religiosa, e outra é o tema da educação espiritual. A
vertente religiosa é um aspecto da natureza humana, e nenhuma educação pode
pretender chamar-se holística se não a toma em consideração. O
espírito de nossa época não se dispõe já com inculcar nenhum tipo de dogmas nem
com atitudes individualistas: chegou a hora de um enfoque transistêmico e
transcultural no campo do espírito. Como uma vez escutei dizer ao bispo Myers
de San Francisco em uma reunião de prospectiva “Não podemos nos permitir menos
do que nos tornarmos herdeiros do acervo cultural completo da humanidade”. O
que necessitamos, obviamente, é uma “aula de religião” onde se apresente a essência
dos ensinamentos espirituais do mundo inteiro e que enfatize a experiência
universal comum que todas elas simbolizam, interpretam e cultivam de maneiras
diferentes
Quero também tocar na questão de quando
uma criança deve ser iniciada no ensinamento religioso. Existem certas
práticas, dotadas de um significado espiritual em certo modo equivalente ao da
meditação, que resultam apropriadas para
crianças pequenas, como são o contato com a natureza, as artes, o artesanato, a
dança, o trabalho corporal, e, sobretudo, a narração de histórias e a fantasia
dirigida. Não obstante, em minha opinião, a época ideal para começar a educação espiritual explícita é
na puberdade, e não antes, a menos que nos proponhamos a levar a cabo uma
lavagem cerebral. As culturas primitivas que, como bem sabemos hoje, podem
estar espiritualmente muito evoluídas, costumam introduzir seus membros nos
símbolos e revelações de sua tradição por ocasião de um rito de iniciação na
adolescência e na vida adulta. Antes disso, os assuntos religiosos são tratados
como mistérios para os quais haverão oportunidades e guias adequados para
quando for o momento. Creio que esta prática, muito propagada, encerra
sabedoria, já que é na adolescência que surge a paixão pela compreensão
metafísica, que converte muitos jovens em filósofos naturais. O que é mais importante:
a adolescência marca o começo do anseio, o despertar da energia que move o buscador
em seu caminho. Este é, portanto, o tempo biologicamente adequado para falar ao
indivíduo em crescimento acerca da “viagem” e de seu objetivo, e acerca das
ajudas, dos veículos, os instrumentos e os talismãs de que pode dispor.
É desnecessário dizer que uma autêntica
educação espiritual não deveria limitar-se ao terreno teórico, pois os
ensinamentos espirituais oferecem um contexto adequado para a prática. Se há de
figurar no currículo uma “aula de religião”, esta deveria ser complementada por
uma introdução vivencial às disciplinas espirituais, por uma espécie de
“laboratório de religião” que incluiria uma introdução à meditação e outras
práticas semelhantes, de modo que o indivíduo, ao deixar a escola, estaria
dotado das ferramentas básicas necessárias ao seu próprio progresso espiritual
na vida cotidiana.
Terá que transcorrer algum tempo antes
de poder contar com indivíduos capazes de montar uma aprendizagem relativa às
disciplinas espirituais baseada na experimentação e desenhada a partir da
perspectiva transcultural e integral. Entretanto, a melhor opção pode ser oferecer
aos estudantes um período de tempo durante o qual possam “provar” entre uma
seleção das principais disciplinas espirituais concebidas de acordo com os
elementos naturais e objetivos de todo ensinamento espiritual e com os aspectos
do processo psíquico implicados nela. É claro, por exemplo, que uma forma
natural de iniciar um programa semelhante poderia basear-se na prática da
concentração, já que todas as formas de meditação, de culto e de reza descansam
na capacidade de concentrar-se devidamente.
Mesmo que este tema, que é um dos meus
campos de especialização, mereça um desenvolvimento muito mais extenso,
basta-me dizer que as variedades existentes de esquemas de prática espiritual
se reduzem, em minha opinião, a uma série de formas puras, ou a uma combinação,
de um número limitado de “ações internas”, e creio que assim como a educação física
requer exercitar as diferentes possibilidades de movimento do corpo, assim
também deveríamos tratar de cultivar as diferentes “posturas psicológicas” que
implica a experiência espiritual; com efeito, esta atitude ótima de consciência
que todas as disciplinas espirituais perseguem como meta, acarreta um estado e
umas experiências multifacetadas, que abarcam qualidades e sensações diversas como
clareza, calma, liberdade, desapego, amor, sacralidade. E ainda que o cultivo
de cada uma destas qualidades constitua por si um caminho, algo se poderia ganhar
através de um enfoque integrativo que, acima do que cada uma delas representa, apontasse
para o objetivo ao qual convergem.
Não obstante as razões de eficácia, um
programa concebido com base na compreensão das dimensões subjacentes a qualquer
tipo de prática espiritual teria a vantagem de conduzir à conciliação
experimental de muitos paradoxos e acabar com a estreiteza mental que supõe discutir
acerca de qual é o caminho “verdadeiro”. Outro fruto adicional seria a
espontânea compreensão da essência de todas as tradições religiosas.
Desenvolvi até aqui minha visão acerca
do que chamo uma educação integral, isto é, uma educação do corpo, das emoções,
da mente e do espírito, que se baseia em uma contemplação equilibrada de seus
diferentes aspectos, e que seja capaz de devolver ao mundo seres capazes de
compreender tal visão e de servi-la com generosidade. Que podemos fazer em favor
de tão nobre iniciativa?
Certamente, a questão decisiva é a
expansão e difusão dessa forma de compreensão. Um maior progresso na
compreensão por parte de todos é suscetível de conduzir a ulteriores desenvolvimentos,
mais criativos que os produzidos até o momento no seio do ensino privado, e isso
já é algo.
Porém o passo seguinte para converter o
sonho em realidade reside, não obstante, na educação dos educadores.
Isto muitos educadores já vêm fazendo
por si mesmos, guiados por um afã de crescimento próprio e amor por sua
profissão procurando novas experiências e informações necessárias através de
distintas formas de educação contínua e autodirigidas. É de se esperar, contudo,
que dentro de não muito tempo os próprios centros de formação de educadores possam
haver assimilado suficientemente a forma holística de compreensão a que nos
referimos, de maneira que no momento de deixar a universidade os professores
tenham desenvolvido, junto com a maturidade e profundidade necessárias, a
perspectiva e a série de habilidades que requer uma educação integral.
À expansão e maturidade da consciência
na população, e de um modo especial entre os profissionais, seguirá de um modo
natural a reforma do sistema educativo oficial: a revolução de hoje é o
“establishment” de amanhã. As instituições sociais possuem sua própria inércia característica,
e o crescimento tem lugar como resultado de ultrapassar tal inércia através da visão
prospectiva: “O poder domesticador do pequeno”, na linguagem do I Ching. O establishment
educativo mereceu ser comparado, por sua inércia, com um elefante branco, e os serviços
que presta resultam obsoletos e irrelevantes até um ponto completamente
injustificável.
A indisciplina escolar, não me resta
dúvida, é neste sentido um fenômeno reativo, uma espécie de greve contra a
inutilidade, uma súplica em prol de uma educação que seja relevante para os tempos
críticos e os problemas reais que devemos enfrentar, uma educação que realmente
possamos considerar sábia e que verdadeiramente nos ajude a sermos melhores.
Confio ter transmitido, através do que
precede, uma certa consciência acerca da negatividade e irrelevância do nosso
atual sistema educativo, patriarcal e anti-holístico com respeito à situação
humana real de hoje em dia, e espero haver deixado claro que este é um tema que
requer uma urgente atenção. Nossa educação é tão absurda como potencialmente “salvadora”.
É absurda até o ponto de que muitos chegaram a falar de desmantelar as escolas como
solução mais adequada (Ivan Illich via no desmantelamento das escolas o passo fundamental
para a grande liberação necessária frente ao autoritarismo em geral). Muitos pensam
que a educação atual não só deixou de cumprir com sua função, mas inclusive,
por omissão nos prejudicou. Ao dizer isto me vem a imagem de um cartaz que apresentasse a foto de um grupo de crianças
cheios de vida, ao lado de outras pessoas em um ônibus, com cara de robôs e
expressão aborrecida, e uma frase embaixo que dissesse: “O que aconteceu?”. Na
hora de encontrar resposta para este processo de adormecimento, de embotamento
das faculdades humanas, não cabe dúvida de que haveríamos de aplaudir à
intervenção de um processo educativo como o atual, tão oposto ao que com ele se
deveria tratar de conseguir.
A situação global que atravessamos me
faz considerar “urgente”, e não somente importante, encontrar uma solução para
este problema, já que, apesar de que a crise que padecemos é conseqüência do
fracasso de nossos planos nas relações humanas, estamos descuidando totalmente
da aprendizagem da dimensão transpessoal no âmbito educativo.
Depois de ter circulado durante muitos
anos a expressão “problemática mundial”, como referência ao grande
macroproblema que engloba todos os problemas que escapam à capacidade de
encontrar soluções dos especialistas isolados, Alexander King, co-fundador do
Clube de Roma, alcunhou em seu livro A Primeira Revolução Mundial, recentemente
publicada, a nova expressão “resolútica”, como contrapartida daquela, e em sua
proposta de uma via complexa de saída para
a situação, destaca junto à da
tecnologia, a importância da educação. Segundo ele, a educação deveria
compreender os seguintes objetivos:
-Adquirir conhecimentos;
-Estruturar a inteligência e desenvolver
as faculdades críticas;
-Desenvolver o conhecimento de si mesmo
e a consciência das próprias qualidades e limitações;
-Aprender a vencer os impulsos
indesejáveis e o comportamento destrutivo;
-Despertar permanentemente as faculdades
criativas e imaginativas da pessoa;
-Aprender a desempenhar um papel
responsável na vida da sociedade;
-Aprender a comunicar-se com os demais;
-Ajudar as pessoas a se adaptarem e a se
prepararem para a mudança;
-Permitir a cada pessoa a aquisição de
uma concepção global do mundo;
-Formar pessoas para que possam ser
operativas e capazes de resolver problemas[3]”.
Pessoalmente celebro e compartilho das afirmações de King, porém
sinto, não obstante, que em sua linguagem de pura objetividade tomado do mundo
da economia, da política e da engenharia, perde-se algo vital substancial: parece-me
significativa a ausência de palavras como
“amor” e “compaixão”. São palavras que
nosso mundo, baseado no desenvolvimento do hemisfério cerebral esquerdo,
considera implicitamente proibidas, de um modo semelhante a como entre os
personagens replicados do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley se considerava
de mau gosto falar da incubadora.
Quero agora me referir ao fato de que
uma das razões por que não se avançou mais até agora, nem sequer na formulação
desses objetivos adicionais que a educação deveria perseguir, é a implícita
convicção de que tentar consegui-los resultaria em um excesso de custos. Parece
natural pensar que uma mudança tão radical em torno dos objetivos da educação –
e não digamos nada quanto aos meios a serem empregados para isto – teria que
supor a correspondente relevância no pessoal encarregado de levá-lo a efeito.
Todavia, acredito que o problema não é
tão insolúvel como parece. A chave definitiva, certamente, se apoiaria em um
modelo diferente de formação dos educadores, que atualmente recebem um excesso
de bagagem intelectual e uma insuficiente educação emocional e espiritual. Por
exemplo, no campo da psicologia se ensina muito a respeito de condutismo porém
nada que realmente ajude a mudar as pessoas; quer dizer, aprende-se a mudar
comportamentos concretos, porém muito pouco a mudar a forma de vida. Por quê?
Porque o condutismo é científico, e como tal só se ocupa do que pode ser
medido.
Uma vez um de meus professores na
Faculdade de Medicina, Ignacio Matte-Balnco, psicanalista chileno emigrado à
Itália há muitos anos, contou-me de um amigo seu que havia desejado estudar
medicina porque lhe atraía como vocação ocupar-se do ser humano, compreender a
mente humana. Com o tempo chegou a dar-se conta do quão impossível era pretender
construir uma autêntica ciência da mente e, por fim, dedicou sua vida ao estudo
da transmissão dos impulsos nervosos e a polarização da membrana do eixo
neuronal do calamar. Creio que a todos nós aconteceu algo assim: que por sermos
científicos limitamos o campo de nossos interesses ao que a ciência pode
abarcar e medir, ficando assim presos em um dos jogos patriarcais, o
cientificismo, que não é, certamente, o mesmo que a ciência, mas apenas uma caricatura
do espírito científico.
Trago para a discussão o tema da
economia a este respeito, porque estou convencido de que essa necessária
mudança de orientação da educação é possível, está facilmente ao nosso alcance
e seria muito menos custoso do que podemos imaginar. Só contando com o
suficiente grau de consciência, seria uma revolução tão alcançável como o
simples gesto de girar um interruptor. Basta fazer uma analogia com a Revolução
Francesa, onde uma mudança radical de orientação na educação (de uma visão
humanista para uma concepção científica) pode ser levada a efeito só porque
houve um governo forte que decidiu fazê-la. “Bem, – disseram as autoridades
–vamos atrair os cientistas para as escolas”. As pessoas que entendiam de
ciência eram aqueles que andavam metidos nos laboratórios, como Lavoisier e
seus discípulos. Era a época do nascimento da ciência e foram atraídos para as
escolas, para ensinar, pessoas que não tinham experiência pedagógica, mas que
tinham muito a comunicar.
Acredito que agora se deveria fazer algo
semelhante: dar um espaço limitado para as matérias que atualmente formam o
currículo (na realidade, a maior parte do quanto aprendemos, aprendemos fora do
meio escolar), condensar boa parte do que hoje em dia se faz nas escolas, e dar
espaço para pessoas que estiveram se ocupando de seu próprio e mais elevado desenvolvimento
interior, gente envolvida no crescente movimento experiencial terapêutico e espiritual
que floresce ao nosso redor. Estas duplas vertentes de busca, psicológica e
espiritual, respondem à sede de respostas despertada no homem na mesma medida
em que a cultura – esta nossa cultura patriarcal, não só já obsoleta e em
crise, mas agonizante – deixou de dá-las. Já Nietzsche, proclamou que Deus
estava morto, porém referia-se na realidade à imagem que as pessoas faziam de
Deus em suas mentes; essa imagem, tão ligada à mentalidade patriarcal, sim, morreu.
Para que renasça o espírito é necessário falar outros idiomas, abrir-se de novo
para a sede e deixar de sentir-se alheios a esta reocupação tão humana. E isto
está ocorrendo à nossa volta nestes tempos. De um modo especialmente genuíno,
esta busca e esta preocupação foi caracterizando os diversos grupos e
tendências englobados no seio da Psicologia Humanista, nascida nos Estados
Unidos como “Movimento das Potencialidades Humanas” nos anos sessenta, e
desenvolvida mais tarde sob o nome de Psicologia transpessoal, que bem poderia
ser considerada um novo xamanismo emergente. Trata-se de um processo contagioso o que transborda por sua própria
dinâmica o marco do acadêmico, mais além de sua inegável e vigorosa capacidade
de fecundá-lo. Creio que dentro desse movimento
geral caberia recrutar um número suficiente de educadores psicoespirituais e as
instituições educativas teriam que lhes dar espaço desde já em seu seio, mesmo
em caráter experimental e complementar. Isto inicialmente, já que a mudança
ideal e definitiva haveria de requerer, como é lógica, uma nova educação dos educadores:
a vida só procede da vida, e a maturidade somente de pessoas que por sua vez já
amadureceram, sobretudo quando o que se trata de transmitir é uma formação
integral e estritamente humana.
O que se acha de menos nas escolas de
formação de educadores hoje em dia é a capacidade de dotar os professores e
mestres de toda série de habilidades e conhecimentos no âmbito terapêutico e no
espiritual, quando, em minha opinião,
seria relativamente pouco custoso incluir estes ensinamentos nos programas respectivos.
Digo isto baseado em minha própria experiência, já que eu mesmo levei a cabo programas
de formação semelhantes, se bem que diretamente dirigidos a terapeutas e não
tanto a educadores. Penso que através de programas intensivos e breves que não
requerem um tempo excessivo, seria possível oferecer uma ajuda eficaz a professores
que se sentem “queimados”, aborrecidos, incapazes de se relacionarem de verdade
com seus alunos, desmotivados e condenados a continuar fazendo algo em que deixaram
de acreditar, sem nenhuma saída para esta situação.
Freqüentemente tive oportunidade de
falar deste tema diante de auditórios escolhidos e especializados e sempre
captei neles uma ressonância que me dá motivos para sentir-me otimista quanto à
difusão e propagação do conteúdo e das idéias precedentes. Entre estas ocasiões,
duas foram especialmente significativas.
Uma teve lugar no II Congresso Holístico
Internacional, celebrado em
Belo Horizonte, em 1991, onde o auditório aprovou por
unanimidade uma moção de recomendação para a UNESCO no sentido de levar em
conta a urgência de incorporar os fatores emocional e espiritual na educação.
A segunda foi no Simpósio Internacional
sobre o Homem, celebrado em Toledo, Espanha, também em 1991, no curso do qual
realizei uma pequena enquete entre os componentes do auditório que assistia
minha conferência. Quase a metade eram educadores e, também nesta ocasião, a
resposta foi completamente unânime no sentido de apoiar minha proposta em favor
de uma educação mais holística, que deveria nutrir-se dos aportes da “Revolução
da Consciência” e do movimento humanístico em geral, e que privilegiasse o
aspecto afetivo e o crescimento espiritual dos educandos.
[1] No
Limits to Learning: Bridging the Human Gap, James W. Botkin, Mahdi
Elmandjara & Mircea
Maletza, Pergamon Press, 1979.
[2] Cfr.,
por exemplo, o livro de Abercromlie, Anatomy of Thinking, e o de
Mayfield, Thinking for yourself.
[3] The
First World Revolution de Alexander King y Bertrand Schneider.
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